Publicado em 08/10/19

6 de outubro de 1437, portugueses são derrotados pelos árabes na tentativa de tomar Tânger no Marrocos.

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1437 – Portugueses são derrotados pelos árabes na tentativa de tomar Tânger no Marrocos.  O príncipe D. Fernando é feito refém em 6 de outubro.

O Desastre em Tânger

Logo após a tomada de Ceuta em 1415, os muçulmanos desviaram seus circuitos comerciais e suas caravanas que antes descarregavam as especiarias da Ásia e o ouro do sul do continente africano, para cidades mais seguradas como Tânger e ao sul a protegida Marraquesh na tentativa de isolar Ceuta retirando-a das lucrativas rotas comerciais árabes.

Para a cristandade da época, havia uma só certeza: Deus estava do lado dos cristãos e havia permitido que Ceuta, dominada pelos infiéis, sucumbisse frente à força portuguesa em 1415. Logo, o porto de Tânger deveria ser presa fácil. Mas não foi. Os mouros, já sabendo do risco de perder a cidade, se prepararam. E, na ansiedade de conquistar duas cidades, os lusos quase perderam a primeira.


1437 – Portugueses são derrotados pelos árabes na tentativa de tomar Tânger no Marrocos.  O príncipe D. Fernando é feito refém em 6 de outubro.


Com a queda de Ceuta, os portugueses se estabeleceram por lá e bravamente a mantiveram quase imunes aos ataques dos mouros, vindos de todos os lados em busca da retomada da cidade. A cidade de Tânger sempre se destacou como um ponto estratégico para qualquer rei ou dinastia, afinal, tratava-se de uma localização preciosa e, por isso, o comércio local era intenso; perdendo em relevância apenas para Ceuta. Foi a terra de nascimento de um dos maiores viajantes medievais da história, Ibn Battuta, o Marco Polo do mundo islâmico.

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Sua posição geográfica isolada e defendida por extensas muralhas, que ainda resistem ao tempo e podem ser vistas frente ao porto, faziam dela um alvo cobiçado pelos cristãos, mas sua capitulação não seria fácil. Coube ao sucessor de D. João I em Portugal, o rei D. Duarte (leia artigo sobre sua morte), assumir a tarefa de tentar conquistar a segunda cidade moura em África.

A decisão de atacar a cidade não foi apoiada por boa parte da sociedade portuguesa, inclusive por D. Duarte que sabia que o caixa do tesouro português estava vazio depois dos excessos de guerra cometidos por seu pai, e a euforia das conquistas anteriores alimentada pelos seus irmãos, principalmente D. Henrique, podia custar caro. Com míseros 6 mil soldados, dos 14 mil esperados, o cenário desfavorável começava a se desenhar.

Mesmo com o apoio do papa a causa da tomada da praça de Tânger, muitas das naus prometidas por nações cristãs vizinhas não chegaram. Parte do efetivo militar rumou para Ceuta, cidade marroquina que estava nas mãos dos portugueses, e de lá deslocaram-se por terra para o cerco, já outra parte com escassos recursos, teve que se deslocara até Tarifa, no sul da Espanha[2], buscando alternativas precárias para atravessar o estreito e se juntarem diretamente ao exército cristão em Tânger.

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Amigos (Karina Tarabay e Karina Cordeiro) que me acompanharam na Travessia de Tarifa para Tânger, 2012. Faltaram ainda Serkan e Felipe Canhoto

Um grande chamado havia sido ecoado por todo o Norte da África e numerosos reforços engrossaram a causa mulçumana, alguns cronistas citam mais de 90 mil homens de reforços, o que parece ser um exagero. Ao final, os lusos liderados dor D. Henrique foram atraídos para a periferia da cidade e isolados de seus navios, sofrendo uma derrota humilhante. Ao fim, receberam a intimação de retornar a Portugal desarmados e sem bagagens tendo que aceitar duras condições de rendição: o estabelecimento de 100 anos de trégua entre as duas nações, a devolução imediata da cidade de Ceuta para os marroquinos, cuja garantia iria se dar com a entrega de um refém de linhagem nobre, o príncipe Fernando aos mouros.

Estátua do Rei D. Duarte em Viseu, foto do autor 2012

O príncipe capturado passou a ser moeda de troca para a devolução de Ceuta aos mouros, mas as pressões internas e as forças políticas na época, cujas vozes de protesto ecoaram por toda Portugal, não admitiam devolver Ceuta aos mouros e exaltavam a legítima conquista cristã que a tomada da cidade simbolizava. Sacerdotes bravejavam que as novas igrejas de Ceuta não poderiam ser profanadas pelos infiéis. Já os mercadores ameaçavam revoltas, pois a devolução da cidade significava expor o sul de Portugal novamente aos piratas e corsários que rodavam o estreito. O rei D. Duarte sabia do preço que pagaria se não entregasse Ceuta aos mouros, seu irmão D. Fernando que havia sonhado ser feito cavaleiro com a conquista de Tânger iria pagar o preço e inevitavelmente seria sacrificado por uma causa maior.

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Vista de Medina de Fès, local onde D. Fernando ficou prisioneiro, foto do autor 2012

Com o príncipe D. Fernando cativo, o rei doente e deprimido recolheu-se em Tomar, vindo a morrer em 9 de setembro de 1438 de um surto de peste. D. Fernando pagou o preço da recusa da entrega de Ceuta e definhou por mais cinco anos nas imundas masmorras[3] da medina de Fès. Suas cartas desesperadas direcionadas aos seus irmãos não surtiram efeito e o príncipe por lá veio a falecer[4]também em 1443. Curiosamente foi no cerco de Tânger que o avô de Pedro Álvares Cabral, também chamado Fernando, foi morto em combate.

Com o fracasso em Tânger e a morte do rei e do cativo D. Fernando, perturbações políticas fizeram Portugal mergulhar em um momento de grave crise e reflexão. Foi um banho de água fria na moral português, resultando no enfraquecimento do ímpeto de navegar e conquistar. Ao final, a pausa trouxe aprendizados e as lutas no norte africano consolidaram-se como uma verdadeira escola para os soldados portugueses, que anos depois conquistariam terras muito longínquas.


[1]             A cidade teve seu apogeu durante a dinastia dos chandelas sobre o comando de Vidyadhar, que reinou entre 1018 d.C e 1029 d.C. Dos 85 templos construídos, pouco mais de 20 ainda resistem. Muitos outros invasores da Índia proferiram danos as belíssimas esculturas de pedra de Khakuraho, entre eles os colonizadores britânicos da era vitoriana.

[2]             Um dos pontos mais próximos entre o continente europeu e o africano, indo de ferry atualmente leva-se menos de uma hora.

[3]             Citação de Elaine Sanceau em seu Castelos de África, página 92.

[4]             Seus restos mortais foram devolvidos aos portugueses mediante uma troca de dois prisioneiros mouros, em 1471, advindos da conquista de Arzila e Tânger pelos portugueses.

Por André Mafra @sabordasespeciarias

 

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Prof. André Mafra

Andre Mafra

  Estudioso da área de culinária desde 2010, dedica-se a pesquisar e estudar sobre alimentação e especiarias. Realizou viagens aos… Continue lendo.

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