Publicado em 03/07/20

3 de julho de 1187 – Saladino comanda a vitória sobre os cavaleiros cruzados na batalha de Hattin

Horns of Hattin

Conheça a batalha que consagrou Saladino, a batalha de Hattin

Foi nas proximidades de Tibéria, na atual Galileia, em Israel, que a batalha de Hattin, a mais importante travada entre cruzados e muçulmanos, ocorreu. Ainda hoje, a região é formada por um terreno seco e arenoso, na maior parte do ano, e o calor extremo provocou baixas no exército cristão. Ao perceber a oportunidade de armar uma cilada, Saladino posicionou estrategicamente seus mais de 30 mil soldados para obstruir a chegada dos inimigos no lago da Galiléia, privando os cruzados de água e comida. Não satisfeito, deitou fogo à erva seca, produzindo uma espessa e intoxicante fumaça que fez do lugar um verdadeiro inferno da Terra. Címbalos, tambores e cânticos vindos das hordas do sultão davam um toque de terror à cena.

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Placa de indicação do cornos de Hattin, dupla de montes onde ocorreu a batalha de Saladino, foto: Milena Sandoval, 2015

Os embates se sucederam e os cruzados foram, então, massacrados. Saladino, já idolatrado por suas façanhas, mirou e cercou, então, a frágil Jerusalém. Em uma atitude desesperada, o governador cristão da cidade, sabendo da superioridade dos árabes após a derrota de Hattin, ameaçou matar os cerca de quatro mil cativos muçulmanos e destruir os lugares sagrados do Islamismo[1]. Fez o poderoso sultão concordar com a proposta de poupar a vida dos cristãos ocidentais caso pudessem comprar sua liberdade. É claro que muitos, cerca de 15 mil, não tinham condições de pagar e, assim, engrossaram a lista de escravos. Saladino teve mais piedade dos cristãos orientais, autorizando sua permanência na cidade, diferentemente do que ocorreu com os latinos, considerados os bárbaros do Ocidente.

Em 1187, o mais famoso inimigo dos cruzados entrou, triunfante, em Jerusalém, reconquistando a Terra Santa para os crentes do Livro[2]. Acredita-se que o então atual papa, Urbano III, tenha falecido em função do desgosto provocado pela perda da cidade e das relíquias da Santa Cruz. O líder seguinte, Gregório VIII, após um pontificado de apenas dois meses, também faleceu. A cruz franca da cúpula do Rochedo dá novamente lugar ao Crescente, água de rosas são jogadas nas paredes do templo.

Interior da cidade velha de Jerusalém, foto do autor, 2015
Interior da cidade velha de Jerusalém, foto do autor, 2015

Com a derrota, os cruzados expulsos pelas forças de Saladino passaram a retornar à Europa, deixando para trás suas fortalezas. Levaram para casa, no entanto, as mudanças que experimentaram a partir do contato com o Oriente e a cultura islâmica. Carregaram também artigos e bens locais, considerados de alta qualidade, além do gosto adquirido pelas comidas condimentadas. Um movimento que impactou profundamente toda a sociedade européia.

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Loja de especiarias na cidade velha de Jerusalém, 2015, foto do autor

As especiarias, que já eram cobiçadas, subiram a um patamar ainda mais elevado de desejo e consumo. Esses sabores traziam aos cristãos ocidentais as lembranças do breve tempo que reinaram sobre Jerusalém. Destaco o cardamomo, cravo, canela, macis, almíscar, gengibre e o popular bálsamo da Terra Santa[3], planta de folhas carnosas cultivada nos arreadores da cidade e bastante utilizadas em ritos da cristandade. Outro importante hábito que os europeus transportaram para o oeste do Mediterrâneo foi o uso do azeite para a cozinha. Até o período das cruzadas, a Europa medieval consumia quase que exclusivamente com o óleo de origem animal, como banha de porco, por exemplo, fato que ainda ocorre no interior não só do continente, mas do Brasil também.

Todo esse fluxo de mercadorias de Outremer, nome dado pelos europeus ao reino franco além-mar, dependia das condições políticas do período. Com o êxito da Cruzada de 1099, essa movimentação se intensificou e os entrepostos comerciais estabelecidas pelos italianos na Síria e no litoral da Palestina ajudaram a incrementar o comércio. Para se ter uma ideia, quase todo o açúcar consumido na Europa durante os séculos XII e XIII provinha das usinas de cana nas cidades francas, entre elas o porto de Acre. Grandes quantidades de tecidos também começavam a migrar para o Ocidente, entre eles seda, linho e até artigos de couro produzidos em curtumes da região. Destaque também para objetos de porcelana e relíquias de caráter religioso.

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Ruínas da antiga Acre, atual Acre em Israel, foto do autor 2015

Já no caminho inverso, da Europa para o Oriente, dois principais produtos eram exportados: madeira e metal, ambos usados para fabricação de armamentos. Genoveses e venezianos eram os responsáveis por todo esse leva e traz de produtos e pessoas. Não é exagero mencionar que, sem a força logística italiana, não seria possível a existência do reino franco além-mar. Por outro lado, não foram poucas as vezes que os italianos – segundo Runciman[4], arrogantes e cínicos em suas condutas políticas – se indispuseram com as autoridades eclesiásticas ao serem flagrados comercializando insumos bélicos com os chamados infiéis.

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Mesquita da ascensão: antiga capela cristã no Monte das Oliveiras, em Jerusalém, onde acreditava-se que, em seu pátio descoberto, a poeira formava, por milagre, as pegadas de Cristo. Foto do autor, 2015

Por outro lado, não foram poucas as vezes que os italianos – segundo Runciman[4], arrogantes e cínicos em suas condutas políticas – se indispuseram com as autoridades eclesiásticas ao serem flagrados comercializando insumos bélicos com os chamados infiéis.

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O formato octogonal da igreja foi estruturado a partir da ocupação dos Cruzados e, em 1187, Saladino transformou o lugar em mesquita. Foto do autor, 2015

[1]             Como a mesquita de Al-Aqsa, a maior da cidade, que tem capacidade para receber cerca de 5 mil pessoas. É considerada o terceiro lugar mais sagrado do Islã.

[2]    Alcorão é uma compilação das revelações de Deus que o Profeta Maomé teria recebido do arcanjo Gabriel, a partir de 610 d.C. até pouco antes de sua morte, em 632 d.C..

[3]     Steven Ruciman em História das Cruzadas, vol III, página 311.

[4] Steven Ruciman em História das Cruzadas, vol III, página 320

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Mafra lake

Andre Mafra

  Estudioso da área de culinária desde 2010, dedica-se a pesquisar e estudar sobre alimentação e especiarias. Realizou viagens aos… Continue lendo.

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