Publicado em 02/05/22

28 de maio – Constantinopla cai nas mãos dos turcos otomanos

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Os últimos suspiros da Constantinopla cristã

Ao fim de maio de 1452, Mehmet e seu poderoso exército janízaro estavam às portas da cidade. A superstição medieval permeava a mente dos cristãos locais: o primeiro reinado começara com Constantino em 330 d.C, filho de Helena, mesmos nomes do atual imperador e de sua mãe em 1453.  Seria esse um sinal do fim de um ciclo de mais de mil anos? A resposta é sim.

Na manhã de dia 25 de maio daquele ano, na igreja de São Salvador de Chora, que, uma multidão se reuniu e partiu em direção às muralhas da cidade, a fim de pedir proteção à Virgem afinal, com o fantasma da invasão turca, a fé era a única solução.

Perto de alcançar seu maior objetivo, Mehmet enviou, como mandava a lei islâmica, um mensageiro com um ultimato, uma proposta de rendição e entrega da cidade. Se aceita a oferta, famílias e bens não sofreriam danos, prometeu o sultão. Mas, no caso de uma negativa, não haveria piedade aos cristãos. O imperador Constantino[1] XI, então, recusou novamente a possibilidade. Após cinquenta dias de insultos e batalhas à beira dos muros de Constantinopla, ceder a um acordo parecia improvável. Em um dos conflitos, o exército de Mehmet capturou marinheiros que fugiam de um naufrágio e ordenou a execução de cada um deles, à vista da cidade. Em resposta, os cristãos mandaram decapitar, diante do inimigo, 260 prisioneiros turcos[2].

O sultão ordenou o ataque à Constantinopla em 27 de maio, um domingo. Seus canhões proferiram um dos ataques mais pesados de todo o cerco[3]. Para cooptar seus homens a avançar, Mehmet, grande estrategista, contava aos guerreiros sobre as riquezas que estavam logo ali, depois daqueles muros. Citava os tesouros únicos e as igrejas incrustadas de ouro – este que, na tradição bizantina herdada dos antigos gregos, simbolizava o divino, o eterno, pois nunca perecia -, além de prata, pérolas e pedras preciosas jamais vistas. Se vencessem aquela etapa, os soldados teriam direito a três dias consecutivos de pilhagem por toda cidade, ofereceu o líder. Pautados pela fé, os otomanos trouxeram à tona a força do Islã para seguir em frente, uma motivação que andava adormecida em outros poucos.

O exército islâmico era treinado para vencer e não recuar, por isso, Mehmet praguejava: caso algum homem se escondesse em sua tenda e se recusasse a lutar, não escaparia de uma morte lenta e dolorosa. “Tende bom coração e estais pronto para morrer alegremente pelo amor de Maomé”, doutrinava o chefe turco.

Afinal, o assédio turco não teria sido um castigo divino vindos dos céus por consequência do Grande Cisma de 1054? As igrejas latina ocidental e grega oriental, divergiam em diversos aspectos, entre eles a redação do credo, o pão usado na eucaristia – com levedura[4] para os orientais, sem levedura para os ocidentais – e a questão do celibato[5]. No entanto, as diferentes nações cristãs presentes na cidade – espanhóis, genoveses, venezianos e gregos – dissolveram momentaneamente as inúmeras diferenças e formaram uma emocionante liturgia na Basílica de Santa Sofia. Mulheres e crianças oravam e trabalhavam duro nos muros da cidade, carregando vigas, madeiras e terra. No que podemos chamar de último discurso do Mundo Antigo, no palácio imperial, Constantino XI bradou aos seus comandados que enfrentassem o perigo e a animalidade do inimigo, assim como haviam feito seus antepassados, enaltecendo a coragem dos romanos ao se depararem com os elefantes de Aníbal muitos séculos antes[6].

A ofensiva final começou oficialmente naquela madrugada, a partir da 1h30. Após os bombardeios aos muros, as primeiras levas de ataque foram proferidas por Mehmet. Seu exército de irregulares[7], na função de cansar o oponente, aproximava-se dos muros e eram rechaçados pelos defensores da cidade, que puxavam as escadas (mais de 2 mil) dos invasores e neles atiravam óleo. Com o efeito devastador dos ataques, durante dias, as impenetráveis muralhas revelaram brechas e, assim, desfaleceram. A luta era desigual. Mehmetcontava com 60 mil soldados e mais 140 mil auxiliares, enquanto os cristãos de Constantino somavam apenas 8 mil[8].

Na madrugada de 28 de maio de 1453, o imperador cristão, enquanto rezava, teve uma visão da Virgem Maria descendo sobre a Terra, lhe pedindo para entregar a coroa imperial e levá-la aos Céus. Esse era o presságio do fim. A cidade agora estava espiritualmente desprotegida. Em atitudes desesperadas, os fiéis levavam imagens sacras e símbolos cristãos para as surradas muralhas, na intenção de amaldiçoar os invasores.

O ataque prosseguiu até uma flecha feriu gravemente Giustiniani[9], principal organizador das tropas de Constantino. Seus homens buscaram socorro e o levaram-no para longe das muralhas contra a vontade de Constantino, que não queria seu principal comandante longe das defesas. Sem o líder, os genoveses se desesperam e fugiram. As portas da cidade se abriram. Nas muralhas, ouvia-se o grito: “Tomaram Constantinopla! ”

Agora, Mehmet não era apenas sultão, mas o mais novo herdeiro do antigo Império Romano. Constantino XI retirou suas insígnias imperais e se jogou no campo de batalha. Não se sabe de seu fim nem o que houve com seu corpo, mas, como é de praxe na tradição cristã, os líderes militares[10] que lutaram em guerras santas tornam-se lenda. Acredita-se que um anjo tenha protegido o imperador, transformando-o em uma coluna de mármore ocultando-o das mãos sedentas de sangue de Mehmet. E um dia esse anjo retornará para fazê-lo humano novamente e reconquistar Constantinopla. Outra versão conta que a cabeça de Constantino teria sido reconhecido por cativos cristãos e exibida no alto de uma coluna, depois enviada às principais Cortes do mundo islâmico[11].

por André Mafra


[1]             O último soberano cristão Constantinopla esteve no poder de 1449 até 1453 apenas.
[2]             Sir Steven Ruciman em La caída de Constantinopla, página 206.
[3]             Segundo Roger Crowley em seu 1453 – A guerra santa por Constantinopla.
[4]             A levedura significava a presença do Espírito Santo e sua não utilização soava como costume judaico, explica Sir Steven Runcinam em La Caída de Constantinopla 1493, página 49.
[5]             No ocidente o celibato era obrigatório para todos que recebiam a ordem sacerdotal, já no Oriente o casamento era permitido entre os clérigos, exceto os Bispos.
[6]           Fato ocorrido em 218 a.C, na segunda Guerra Púnica entre os Cartagineses e os Romanos.
[7]     Irregulares era o nome dado a esses homens de outros povos convertidos ao Islã. Tinham sua sobrevivência garantida pela subserviência ao sultão. Serviam com “bucha de canhão”. Já a tropa principal era composta de cinco mil homens bravos, treinados e muito bem equipados divididos em infantaria pesada, arqueiros, lanceiros e os janízaros, horda da elite militar turca otomana.
[8]             Fonte de Judith Harrin em Bizancio página 407, 408.  Já Sir Steven Runciman em La caída de Constantinopla, página 17, mais modesto, assume 80 mil, mais 20 mil irregulares e outros que somavam poucos milhares. Em compensação cita sete mil do lado cristão.
[9]             Famoso soldado genovês chamado Giovanni Giustiniani Longo que tinha chegado como reforço ocidental em 29 de janeiro de 1453 . Trouxe junto dele 700 tropas bem armadas. Era um estrategista para defender cidades muradas, foi uma grande inspirador das tropas locais e ocidentais. Segundo Runciman ao invés de uma flechada foi ferido bala de canhão que atravessou seu peito.
[10]           Como D. Sebastião, rei em Portugal que foi morto em Marrocos, entre outros.
[11]  Sir Steven Runcimam , La Caída de Constantinopla 1453 página 253

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Andre Mafra

  Estudioso da área de culinária desde 2010, dedica-se a pesquisar e estudar sobre alimentação e especiarias. Realizou viagens aos… Continue lendo.

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