Publicado em 29/05/18

A Pequim (Beijing) de Marco Polo

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O mais ilustre viajante europeu da Idade Média ficou eternizado pela descrição de sua extensa viagem para o Oriente, transcrita por ele para seu colega de cela Rustichello, que, durante o tempo em que esteve na prisão, ajudou a compilar todas as histórias do veneziano (pelo que consta, Marco Polo não gostava de dialogar com o papel branco). Seu livro teria sido escrito em 1298.

Marco Polo percorreu as grandes rotas e caravanas de comerciantes do Oriente, entre elas, a conhecida Rota da Seda, que, nos tempos do célebre veneziano, conectava a China ao Oriente Médio, para o transporte de especiarias, pedras preciosas e, claro, a seda. O caminho variava de acordo com a época e com a geopolítica local. Durante a estabilidade de um governo extenso e poderoso, Gengis Khan e seus sucessores possibilitaram, a esses comerciantes, uma segurança nunca antes vista em trechos tão vastos. Polo, então, usufruiu de livre trânsito por tais longínquas terras.

A ocupação mongol no norte da China durou aproximadamente de 1260 até 1360, quando a dinastia Ming expulsou os ocupantes do território. Curiosamente, foi quando se iniciou a construção da grande Muralha da China, para evitar a invasão de “bárbaros” do Norte.

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Ponte de Marco Polo, Beijing, China, 2018

Mas, em se tratando de China, é preciso entender um pouco da Pequim de Marco Polo. Em seu livro Descrição do Mundo, o viajante explica-nos fatos curiosos sobre a atual capital chinesa. Seu nome aparece como Cambalic (encontra-se também como Cambalau, Cambalique, Camblau, entre outros), cidade assumida como a capital dos mongóis e residência oficial do imperador mongol e de sua extensa corte.

Marco relata que havia anteriormente uma outra cidade muito grande e bela, de nome Garibulu (a tradução seria A cidade do Senhor), mas o soberano local, Kublai Khan, consultando seus astrólogos, descobriu que a cidade iria se revoltar, causando problemas. Então, outra foi erguida ao lado da que diziam ser amaldiçoada e ganhou o nome de Cambalic. Sua construção tinha o formato de um quadrado, todo murado, e suas ruas seriam também todas geometricamente dispostas. Segundo Marco Polo, em torno dos muros, havia um grande número de vilarejos, com uma população somada bem maior do que da própria cidade murada, Marco descreve o povo “além-muro” como um bando de malfeitores que vagueiam pelos arredores dos portões. Atualmente, há poucos resquícios das muralhas construídas pelos mongóis.

Simone de Beauvoir, em sua obra A longa marcha[1], faz uma interessante comparação entre o modelo europeu de constituição das cidades e de Pequim:

As cidades da Europa foram organizadas em torno de monumentos que as encarnam: catedrais e prefeituras; próximos a estes edifícios estendiam-se os átrios, as praças, os mercados, para os quais convergiam as ruas, carreando as ondas dos cidadãos que aí periodicamente se reuniam. Ao contrário, em Pequim é um polo não atrativo, mas repulsivo. A população não tinha o direito de aproximar-se do palácio; Pequim não se organiza em torno dele, mas foi repelida pelas muralhas.

A permanência do Grande Khan em Cambalic estava restrita a determinadas épocas do ano, quando grandes cerimônias e festas eram organizadas. Ao chegar, ia diretamente ao palácio, onde gastava seus três primeiros dias desfrutando de suas mulheres e suntuosos banquetes.

A fartura é destacada, colocando a antiga Cambalic como uma cidade que concentrava diversas riquezas que chegavam de distintas partes do mundo, como pedras preciosas, pérolas e as melhores especiarias e demais produtos de grande valor das Índias.

Após a queda dos mongóis pela dinastia Ming, quase todos os resquícios dos descendentes de Gengis Khan foram varridos do mapa; dentre as exceções, está aquela que é chamada pelos guias turísticos de Ponte de Marco Polo, nos subúrbios da atual Beijing, 18 km a oeste. No fim das contas, é pouco visitada pelos turistas ocidentais, a maioria de ocidentais. Sua construção data do século XIII e por não ter sido feita de madeira, como tantas outras construções chinesas antigas. A China que vemos hoje nem pode ser considerada tão velha, pois lá se vão apenas duzentos anos, mas obedece a um plano que vem de épocas bem anteriores.

Em seu livro, Marco Polo encerra a descrição dessa ponte como uma das coisas mais belas de ver no mundo. Vamos a um trecho na íntegra.

(…), encontra-se um rio chamado pulisanghin.. Sobre o rio há uma ponte muito bonita, toda de pedra, digo mesmo que não há outra igual. Tem o comprimento de duzentos passos e largura de oito. Por ela passam muito bem dez homens a cavalo, um ao lado do outro. Esta ponte apoia-se sobre trinta e quatro arcos, formados por trinta e quatro pilares, que se levantam da água, todos de mármore. A balaustrada é toda em colunetas de mármore, que se apoiam sobre leões esculpidos e que, por sua vez, carregam outros leões muito grandes, bonitos e bem esculpidos. A cada passo  há uma dessas colunas com seus leões. O vão entre as colunas é vedado por uma laje de mármore, a fim de evitar que alguém caia no rio. Assim é a ponte inteira. Uma das coisas mais belas de ver no mundo.

As Maravilhas, página 71.

[1] A Longa Marcha, página 22, edição de 1963.

por André Mafra

 

 

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Autor
Prof. André Mafra

Andre Mafra

  Estudioso da área de culinária desde 2010, dedica-se a pesquisar e estudar sobre alimentação e especiarias. Realizou viagens aos… Continue lendo.

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