Publicado em 16/08/19

16 de agosto de 1191, A bárbarie de Ricardo Coração de Leão

Vista das Muralhas de Akko, (antiga Acre, norte de Israel).

 Um ato sem coração na Cruzada dos Reis.

Para chegar até a distante Jerusalém, o deslocamento era um dos maiores inimigos para os soldados durante as Cruzadas, motivo pelo qual os franceses, sob o comando de Philippe Auguste, pediram auxílio aos genoveses para serem transportados por via marítima.

Mapa da terceira Cruzada – crédito do site recklessbooks.co.uk

A história dos franceses na Terceira Cruzada foi breve, mesmo com a palavra franco sendo designada para se referenciar ao ocidental invasor.  Eles partiram para o leste, mas o rei francês, após o cerco à cidade de Acre (atual Akko ao norte de Israel), desistiu da ofensiva, retornando à Europa em agosto de 1191 e oficializando, em Roma, seu afastamento da batalha. Um dos motivadores da decisão foi seu abalado estado de saúde; desde que havia chegado à Terra Santa, sofria de diversas enfermidades, entre elas a arnaldia, forte febre que provocava queda de cabelos e unhas.

Philippe partiu, deixando para trás seu aliado Ricardo I, eternizado na história como Ricardo Coração de Leão[1], líder dos ingleses. Mas, a aliança foi desfeita assim que o francês chegou ao Velho Mundo e decidiu atacar possessões de terras de seu companheiro. A parceria em que tanto o papa apostava para fazer frente ao poderio muçulmano estava encerrada.

Os ingleses deslocaram-se por via terrestre, solicitando salvo-conduto aos governantes dos territórios por onde passavam – documento não muito fácil de obter, afinal, ter suas terras invadidas por milhares de soldados famintos não devia ser nada confortante para o rei local. Mesmo com as dificuldades, eles chegaram e invadiram as terras do Oriente Médio sitiando o estratégico porto da cidadela de Acre. Depois do êxito Primeira Cruzada, sob o reino dos cruzados, Acre havia sido a mais próspera cidade, mas estava agora nas mãos muçulmanas de Saladino, que rapidamente deslocou-se para lá com seus homens para protegê-la. Após duras batalhas nas muralhas de Acre, o idolatrado sultão foi derrotado e a cidade voltou as mãos cristãs.

Apesar do apelido “Coração de Leão”, uma coisa que os soldados de Cristo pareciam não ter era coração, inclusive Ricardo que ao ter novamente a posse da cidade, cometeu umas das maiores atrocidades de guerra da época, considerada brutal até mesmo para os padrões vigentes. Sem saber o que fazer com os cativos muçulmanos de Acre, pois tinham que ser alimentados e mantidos presos enquanto duravam as negociações com Saladino[2], Ricardo decidiu eliminar o problema pela raiz: mandou decapitar os 2.700 prisioneiros sobreviventes, entre eles soldados, mulheres e crianças. Nunca na história das Cruzadas, até aquele momento, cativos haviam sido tratados dessa maneira. Chegou-se a ponto em que os parâmetros de tolerância e tratamento entre os inimigos desceu para o nível de barbárie extrema.

Sob o comando de Ricardo, os cruzados partiram de Acre pelo litoral, hoje costa israelense, em direção a Jerusalém, passando por Haifa, Cesaréia (antiga Caesarea) e Jafa, onde pequenos, porém violentos combates, se sucederam contra as forças de Saladino. O líder inglês, contando com apenas 10 mil homens, hesitou em avançar em direção ao interior para a conquista da Terra Santa, permanecendo na costa, para desespero de alguns soldados, que de tão longe haviam partido e sonhavam em guerrear em Jerusalém. No entanto, ele estava certo: não haveria como tomar a cidade com aquele contingente e, mesmo que a tomasse, não conseguiria mantê-la por muito tempo.

Ao fim, dois dos maiores generais da fé na história, Ricardo Coração de Leão e Saladino, fizeram um acordo para que as cidades costeiras Tyro, Acre, Caesarea e Jaffa ficassem em poder dos cruzados, com a condição de que Jerusalém permanecesse com o Crescente. Os líderes decidiram que os peregrinos cristãos poderiam visitar a cidade e, assim, uma trégua de alguns meses foi estabelecida.

Dessa forma milhares de cruzados desistiram da causa e retornaram à Europa, inclusive o próprio Ricardo, enfraquecendo a luta cristã. Ele sabia da incapacidade das forças francas de enfrentar Saladino e também do risco que seus territórios na Europa sofriam com o assédio de seu antigo companheiro Philippe. Por ironias do destino, logo depois de sua partida, Saladino faleceu e o reino muçulmano, então, entraria em queda. Ricardo jurou que um dia retornaria para tomar Jerusalém, mas nunca o fez. Era o fim da Terceira Cruzada, batizada de a Cruzada dos Reis.

Vista das Muralhas de Akko, (antiga Acre, norte de Israel).
Vista das Muralhas de Akko, (antiga Acre, norte de Israel).

[1]             Era um gênio militar, um dos melhores estrategistas de guerra das Cruzadas, e ainda por cima um líder carismático. Ao fim, voltou para a Europa, jurando que retornaria para tomar Jerusalém, mas nunca o fez. Morreu em 1199.

[2]             Os cruzados queriam que Saladino devolvesse relíquias sagradas tomadas na Segunda Cruzada.

 

 

CATEGORIAS:
TAGS:
Autor
Prof. André Mafra

Andre Mafra

  Estudioso da área de culinária desde 2010, dedica-se a pesquisar e estudar sobre alimentação e especiarias. Realizou viagens aos… Continue lendo.

Error: Access Token is not valid or has expired. Feed will not update.
This error message is only visible to WordPress admins

There's an issue with the Instagram Access Token that you are using. Please obtain a new Access Token on the plugin's Settings page.
If you continue to have an issue with your Access Token then please see this FAQ for more information.

Instagram

Tópicos recentes

Comentários

Arquivos

Meta

Páginas