Publicado em 04/08/19

4 de agosto de 1578, D. Sebastião I de Portugal morre na batalha de Alcácer-Quibir no Marrocos

Muralhas de Assilah, no litoral Marroquino, antiga praça portuguesa

1578 – 4 de agosto – D. Sebastião I de Portugal morre na batalha de Alcácer-Quibir no Marrocos.

Os portugueses sentem o gosto amargo do Cuscuz marroquino…

Tema de encaloradas discussões entre portugueses e espanhóis, as seis décadas de reinado espanhol em Portugal é considerado por muitos portugueses o golpe final contra a supremacia lusitana no planeta.

Tudo começou com a desastrosa intervenção portuguesa de D. Sebastião fez ao interior de Marrocos, região de Ksar el-Kebir. Na época havia um grande interesse de toda a cristandade cristã em empreender forças conjuntas para tentar frear o avanço turco que se estendia desde Constantinopla, tomada em 1453, e mais de um século depois só se expandia, alcançando o norte da África e as possessões lusas no continente africano.

Empolgado pelo movimento cristão que anos antes em 1571 tinham derrotado os turcos no mar Egeu, o jovem monarca português viu no enfrentamento dos turcos no norte da África uma forma de mostrar a sua liderança e poder junto dos reinos cristãos, atitude claramente impulsiva e desmedida. Sebastião recebeu a visita de um Mulay Mohammed[1] um exilado das terras marroquinas, ele enxergou em Sebastião um ótimo aliado para enfrentar o seu tio que havia tomado o poder em Marrocos, mas suas referências não era das melhores. Elaine Sanceau citando Bastião Vargas, por exemplo, comenta que Mulay era homem afável, mas que não servia senão para estar no banho ou a comer cuscuz.

Além do fugitivo marroquino Mulay Mohammed, o obstinado rei português, solicita auxílio ao seu tio Felipe II rei da Espanha e de outros reinos cristãos. Para Felipe II a vitória da coalizão cristã seria ótima para a segurança da navegação mediterrânea, mas caso ele fracassasse, o reino português poderia ser uma herança bem-vinda[2], interessado na proposta Felipe II habilmente conseguiu iludir o jovem a seguir em frente.

Estrada Tânger- Asilah no Marrocos
Estrada Tânger- Asilah (antiga Arzila) no Marrocos

Sebastião lançou-se em sua perigosa empreitada, juntou um exército nacional, recebendo um tímido apoio de outras nações cristãs, inclusive de Felipe II. Os portugueses chegaram desembarcam em Tânger com seus 800 navios e seguiram a pé até a Arsila[3] pela costa atlântica, região mais amigável aos portugueses que por anos já explorava a região. Em Arsila receberam mais reforços, permaneceram por lá umas duas semanas montando a melhor estratégica e seguiram até Larash onde toda a força cristã unida se deslocou para a planície mais ao interior de Ksar el-Kebir onde enfrentou a aliança marroquino-otomana composta de mouros, berberes, turcos e granadinos[4] cujo total superavam os 100 mil soldados.  Pela “Glória de Portugal”, como diria D. Sebastião, os maus preparados lusos caminharam em terreno poeirento e o sol escaldante foi o primeiro a fazer suas vítimas[5].

Experiente na guerra em seu território, o velho comandante marroquino Mulai Mohammed mandou forjar cartas do rei de Portugal e as mostrou para seus homens, nelas o “rei de Portugal” ameaçava os possíveis derrotados: que os renegados da Berbéria fossem presos e queimados vivos[6]. A batalha dos Três Reis como ficou conhecida iniciou-se nas planícies do interior marroquino na região da atual Ksar El Kebir e sob o comando do valente, mas pouco general D. Sebastião, os cristãos foram massacrados. Fez-se silêncio na planície marroquina, o campo de batalha agora, dava lugar aos abutres e chacais que ali voavam desde antes esperando pelo fim da carnificina. Ao fim estavam mortos os três reis[7]. Ahmed el-Mansour irmão de Al-Malik vencedor da batalha dos Três Reis assume o reinado marroquino, seus restos mortais estão na necrópolis, nome dado ao complexo que abriga tumbas do período Saadiano em Marrakesh e representam o melhor e mais belo exemplo da arquitetura islâmica no Marrocos.

Saadians tombs - tumbas do período Saadiano em Marrakesh e representam o melhor e mais belo exemplo da arquitetura islâmica no Marrocos
Saadians tombs – tumbas do período Saadiano em Marrakesh e representam o melhor e mais belo exemplo da arquitetura islâmica no Marrocos

Foi a pior derrota militar que Portugal já sofreu se levarmos em conta os acontecimentos seguintes, além das muitas baixas inclusive a do próprio rei D. Sebastião[8], a coroa portuguesa ficou sem herdeiros e Felipe II[9] da Espanha pouco depois com a morte do Cardeal D. Henrique[10], anexa Portugal ao seu reinado. Mesmo tendo meu coração meio luso, meio espanhol, não teria coragem de escrever que a anexação de Portugal pela Espanha foi positiva para os lusitanos. Ainda procuro um português que considere esse período bom para seu país. D. Sebastião continuou sendo o “Desejado do povo”, o mito que talvez em um dia de nevoeiro, apareceria em regresso milagroso a sua pátria mãe.

A lenda atravessou o oceano e o Sebastianismo chegou ao nordeste brasileiro, no Maranhão ainda hoje acredita-se que o rei faz suas aparições nas dunas dos lençóis maranhenses em um boi preto.  Daí para frente desmantelou-se o império português, a não ser o seu território mais ao oeste o Brasil que passou a receber mais atenção da Coroa portuguesa à medida que sua influência asiática diminuía. A união ibérica foi vendida pelos espanhóis ao resto da Europa cristã como uma grande vitória, a chance de uma grande união da cristandade, Veneza sempre muito política enviou seus emissários a Felipe II e com eles suas congratulações pela conquista de Portugal. Chegamos a um excelente momento no qual o oeste do continente ganhava força e união, afinal o grande reino da Espanha naquele momento poderia ser a grande potência suficientemente forte para liderar o ataque ao temido inimigo turco que cada vez mais tirava o sono do papa.

[1]          O sultão aliado dos portugueses era Mulay Mohammed (Mulei Amede para Elaine Sanceau). Seu tio era Abd Al-malik que tinha tomado o trono de Mulay e se aliado aos turcos, aqueles mesmo que anos antes haviam tomado Constantinopla!

[2]             Suas palavras teriam sido: “Vaya em huera buena, que si venciere Bueno yerno teneremos; e si fuere vencido, Bueno reyno nos vendrá”. Ao fim Felipe II voltou atrás e resolveu não apoiar a guerra em África quando Almélique pediu um acordo de paz, mas Sebastião não aceitou.

[3]             Hoje a atual Assilah.

[4]             Elaine Sanceau em Castelos de África página 395.

[5]             A força portuguesa estava no mar junto aos seus navios, ter se deslocado para o interior foi considerado uma grande falha.

[6]             Elaine Sanceau em castelos de África página 397.

[7]             O rei cristão D. Sebastião, Abd El Malik e seu sobrinho El Mutawakkil rivais mulçumanos da dinastia dos Saadians. Mesmo com a morte de Abd El malik o governo ficou na mão dos marroquinos associados dos turcos, seu irmão Moulay Mohammed  assumiu o posto.

[8]             Até Camões foi acusado de ter incentivado D. Sebastião com a publicação de seu épico Os Lusíadas. Reza a lenda que Camões leu seu texto para D. Sebastião no agradável palácio Nacional de Sintra e que com ele teria incentivado a mente já perturbada do rei português a se lançar na tentativa da tomada de Marrocos. Com Camões ou sem ele D. Sebastião teria ido para o Marrocos.

[9]             Tornando-se Felipe I de Portugal

[10]           Foi quem assumiu o trono português com a morte de São Sebastião, conhecido como “O Casto”, o cardeal  naturalmente não possuía filhos. Foi considerado inábil na condução do reino português e de sua sucessão, não suportou as pressões do reino de Castela e entregou o comando de Portugal ao chefe espahol.

 

 

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Prof. André Mafra

Andre Mafra

  Estudioso da área de culinária desde 2010, dedica-se a pesquisar e estudar sobre alimentação e especiarias. Realizou viagens aos… Continue lendo.

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