Publicado em 23/03/16

Marrocos, O deserto do Saara

As caravanas do deserto

O grande deserto africano se chama Saara, uma imensidão de areia e pedra com aproximadamente nove milhões de quilômetros quadrados. Uma região que ocupa  diversos países e se desloca pelo interior do continente, do sudeste ao leste, passando pelo rio Nilo. Para simplificar, o Saara é o lugar mais seco, vasto e quente do planeta Terra.

As rotas comerciais atravessavam o deserto em vagarosas caravanas guiadas por camelos em direção à costa marroquina, em especial a cidade de Marrakech, que por anos foi a cidade líder no comércio dos produtos vindos dessas expedições. Uma caravana por via terrestre, naquela época, não era uma empreitada fácil. Saques, assaltos e emboscadas eram fatos corriqueiros, e a isso somam-se as altas temperaturas e os extensos deslocamentos.

Os camelos são chamados também de os navios do Deserto
Os camelos são chamados também de os navios do Deserto

Os camelos são uma verdadeira máquina capaz de se adaptar a condições extremas e podem ingerir mais de 130 litros de água de uma vez. Foram corretamente apelidados de os navios do deserto, pois os mesmos podem suportar viagens de até cinco dias sem alimentos e sem água.

Estive nas maravilhosas dunas de Erg Che bi, que fazem parte da extensão do Saara dentro do Marrocos e estão localizadas muito próximas da instável fronteira com a Argélia. Saímos cedo de Fès em direção ao sudeste, cruzando os High Atlas, a grande espinha dorsal de montanhas que separam o oceano do deserto. Suas grandes encostas, planaltos áridos e multicores, florestas de cedro e lagos fizeram dessa rota a mais linda que percorri em toda minha vida. Um espetáculo de embasbacar qualquer mortal.

Deslocar-se do Norte para o sul significava travar contato com os primeiros habitantes do Marrocos: os berberes. Eles compõem uma boa parte da população marroquina e suas tradições culturais são resultado da fusão de suas próprias com a estrangeira árabe. Podemos, assim, definir a cultura marroquina como uma mistura de tradições berbere, árabe e europeia, em especial Espanha e França.

Ainda hoje, são poucos os meios de se desbravar o deserto: ou utiliza-se dos antigos camelos, ou de um carro munido de tração 4×4 e guiado por um bom condutor. Seguimos, com meu honesto carro alugado, que nem de longe parecia ter tração competente para encarar dunas, cruzando pequenos vilarejos, até cruzar o povoado de Merzouga. Pouco depois, funcionários do hotel em que nos hospedamos nos encontraram à beira da estrada e nos conduziram por uma rota apenas visível para os acostumados ao Saara.

Parecia difícil de acreditar, mas havia chegado ao Saara e por lá eu iria repousar. Dentre os clássicos passeios turísticos oferecidos, um dos mais tradicionais é o de passar uma noite em tendas deslocados por camelos. Mais do que um exótico entretenimento, passar uma noite no deserto, abrigado por tendas deslocadas por camelos, teve para mim um significado especial. De alguma forma, pude vivenciar um pouco do que os deslocamentos pelas antigas rotas das caravanas comerciais costumavam ser, sentindo na pele o calor intenso[1] do deserto. O ar seco formava uma paisagem única[2] e, ao mesmo tempo, tão igual ao cenário de séculos atrás. Foram menos de 2 horas de deslocamento vagaroso no lombo do camelo. Ao início do passeio, parti como um rico mercador ou sultão do deserto; no fim, estava em frangalhos, mais parecido com um cativo cristão. Entendi na pele o porquê do valor altíssimo das especiarias e dos demais objetos que aqueles produtos carregavam.


[1]             Os passeios são feitos com saída no fim da tarde, já que no sol a pino o calor chega a mais de 50 graus no verão.

[2]             Única mesmo, pois as dunas se formam de acordo com o vento.

por Prof. André Mafra Copyright.svg

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Prof. André Mafra

Andre Mafra

  Estudioso da área de culinária desde 2010, dedica-se a pesquisar e estudar sobre alimentação e especiarias. Realizou viagens aos… Continue lendo.

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